Vamos falar de diversidade

As imagens nos livros de Geografia

Trecho da entrevista concedida por Eustáquio de Sene ao professor Wenceslao Machado de Oliveira Jr., da faculdade de Educação da Unicamp, e sua orientanda Elaine dos Santos Soares, publicada na Revista Brasileira de Educação em Geografia.

Vamos falar de diversidade

Wenceslao: Como você vê o “desequilíbrio regional” na incidência de imagens nos livros de Geografia?

Eustáquio: Isso é uma coisa que eu ouço muito quando viajo pelo Brasil. Os professores dizem: “Puxa, só têm fotos do Sudeste nos livros de Geografia”. É que os bancos de dados e imagens estão concentrados nessa região, assim como as editoras e a maior parte dos autores. Acho que é por isso que acaba havendo essa predominância. Mas a gente tem a preocupação de diversificar (sempre tivemos essa preocupação, não só em termos nacionais, mas também em mundiais). Numa coleção que estamos fazendo, como optamos por uma divisão regional por continentes, tem uma unidade de África. Têm fotos das mais diversas paisagens da África. Acho que, de forma geral, quando a abordagem dos livros é temática, a África aparece pouco, até porque tem pouca coisa, não têm tantas opções de material. Não me refiro só ao material iconográfico, falo de fontes de pesquisa também, mas isso está mudando.

Wenceslao: Então, a disponibilidade de informações tem relação com o local pesquisado?

Eustáquio: Isso expressa a própria lógica da globalização. A África é um continente relativamente marginalizado. Naquele mapa que mostra o planeta iluminado, os pontos de luz no mundo, fica evidente que a África é um continente que está às escuras. Isso já é um indício de que possui pouca infraestrutura necessária para sediar fluxos de globalização.

Aqui, um parêntese sobre esse tipo de mapa: as pessoas olham aquela imagem e poucas se dão conta de que o que veem não existe!

Aquela imagem é uma invenção, uma ficção. Esse planetário é feito com um mosaico de imagens, com imagens de satélites, coletando fotos noturnas. Essa vista do planisfério seria impossível, porque a Terra tem sempre uma parte escura e outra iluminada. Retomando o caso da África, essa falta de infraestrutura acabou fazendo com que o continente ficasse meio esquecido mesmo. Têm menos informações, têm menos bancos de dados em geral, e acaba aparecendo menos. Mas isso está mudando... Por uma série de razões, o continente está se inserindo mais... Hoje, Angola, por exemplo, é muito interessante, tem um crescimento econômico equivalente ao chinês. Está crescendo muito, só na primeira década do século XXI cresceu em média 13% ao ano. O país está se transformando. Um país gigantesco como a China crescendo assim já muda muito, imagina um país menor. O país está virando do avesso. Em grande medida por conta de investimento chinês. Muito investimento brasileiro também, europeu... Porém os chineses estão transformando a África. Muitos veem isso como no imperialismo, mas mudou o papel da África. Continua exportando matéria-prima, entretanto, hoje as matérias-primas são muito valorizadas, graças à China. Inclusive o Brasil está tendo um processo de reprimarização da sua pauta de exportações justamente por causa dos chineses. Mas a China favorece de um lado e prejudica de outro. Favorece as exportações de matérias-primas (o que elevou o preço dos commodities) e ao mesmo tempo impede a industrialização daqueles que não se industrializaram, como é o caso dos africanos, ou até leva a uma desindustrialização, como é o caso do próprio Brasil.